Unidos de Jucutuquara aposta em enredo sobre Maria Padilha em ensaio técnico no Sambão do Povo

Thierry Khalil e André Cypreste

A Unidos de Jucutuquara realizou no último sábado (10) seu ensaio técnico no Sambão do Povo, em Vitória. Tetracampeã do Carnaval capixaba, a escola apresentou um trabalho marcado pela entrega emocional e pela força do samba-enredo “Arreda, homem! Que aí vem mulher!”.

O enredo exalta Maria Padilha como símbolo de coragem, liberdade, sensualidade e resistência. Pensado como um manifesto poético e espiritual, o desfile propõe dar voz a histórias e identidades historicamente silenciadas, transitando entre o sagrado e o profano.

Foto: Thiago Soares

O carnavalesco da escola, Marcelo Braga, destacou que o ensaio técnico foi fundamental não apenas para ajustes técnicos, mas também para a confirmação espiritual da proposta apresentada.

“No ensaio técnico a gente consegue perceber muitas coisas, como separação de alas e desenvolvimento. Mas, acima de tudo, o mais importante pra gente é entender que esse enredo não está falando de uma pessoa. Nós estamos homenageando uma entidade de religião de matriz afro-brasileira, e a sensação que tivemos é que ela esteve junto com a gente. Se ela aprovou, nós estamos felizes”, afirmou.

Marcelo Braga também ressaltou o caráter educativo do enredo e a importância de reafirmar as raízes do Carnaval.

“O carnaval tem como essência a cultura preta do nosso país, e muitas vezes a gente esquece as nossas origens. É preciso valorizar a cultura preta e as religiões de matriz afro-brasileira. O Carnaval é preto. Em nenhum dos meus trabalhos eu fiz homenagem a pessoas brancas, especialmente a invasores da nossa terra. Eu quero dar voz a quem não tem voz e falar de assuntos que precisam ser ditos. O ser humano tem medo do desconhecido, então por que não conhecer e aprender? Nosso enredo é didático. Não é para converter ninguém, é para que as pessoas conheçam e respeitem”, completou.

Foto: Thiago Soares

Mesmo enfrentando limitações financeiras e atrasos no planejamento após o processo eleitoral da escola, o carnavalesco avaliou o ensaio como positivo.

“Dentro das nossas limitações financeiras, tudo fluiu muito bem. Está bonito porque tudo foi guiado por Maria Padilha. A gente sabe que a intolerância religiosa existe e vem de todos os lugares, e quebrar tradições é muito complexo. Por isso vem a questão de ensinar. Não queremos converter ninguém, mas queremos que as pessoas conheçam e respeitem. Em 2009, quando a escola foi campeã pela última vez, o enredo falava do Convento da Penha. Agora vamos para um desfile fenomenal, sobre uma entidade de religião afro-brasileira. Esse é o poder do carnaval”, destacou.

O presidente da escola, Ewerton Fernandes, classificou o trabalho como uma obra marcante. “É uma história real, que começa na Espanha, passa pelo Brasil e chega ao secreto, que é o espiritual da escola”, explicou.

Mesmo em período de resguardo, a rainha de bateria Fernanda Passon acompanhou o ensaio técnico. Apenas 19 dias após uma cesariana, ela destacou que a prioridade é chegar em plenas condições ao desfile oficial. “Hoje fico quietinha para estar bem no dia do carnaval”, comentou.

Fernanda Passon, rainha de bateria da Jucutuquara – Foto: Thiago Soares

Responsável pela comissão de frente, a coreógrafa Márcia Cruz explicou o conceito apresentado na avenida. “A comissão de frente vai falar sobre Corpus Padilhas, que são filhos e filhas que recebem a essência da Padilha. Isso acontece na vida, nos terreiros, no dia a dia, e se faz presente em cada corpo. Ela não está só na encruzilhada, está em cada gesto, na dança com energia, com amor. Padilha é amor, é guerreira, é felicidade”, afirmou.

Visualmente, a Unidos de Jucutuquara coloriu a passarela de verde e vermelho e empolgou o público presente. A bateria teve atuação segura e ousada, enquanto o intérprete Kaike Sant’Anna, que fez sua estreia na escola, foi um dos destaques do ensaio, sustentando o canto da comunidade do início ao fim. A comissão de frente, apesar da boa recepção, ainda deve passar por ajustes de sincronização até o desfile oficial.