Unidos da Piedade homenageia Edson Papo Furado, ícone do carnaval capixaba, em 2026

Piedade celebra seu primeiro intérprete mobilizando a comunidade a caminho de um 2026 marcado por pertencimento, resistência e Samba com S maiúsculo.

Larah Roque e Mariana Costa

Foto: Reprodução/ Instagram @edsonpapofurado

No alto da Fonte Grande, onde o vento sopra as telhas como quem sussurra segredos antigos, a Unidos da Piedade, que segue maior campeã do carnaval capixaba, prepara um Carnaval virado para dentro. Em 2026, a escola mais antiga de Vitória escolhe homenagear Edson Papo Furado, e, ao fazê-lo, devolve ao morro a própria memória.

Puxeta, diretor de bateria, diz que a escola decidiu falar do seu próprio chão, do próprio “reduto”. É uma frase curta, mas carrega um século. Para ele, o enredo condensa “a boemia e a resistência” que Papo deu forma com a voz. Everton Rosa, marcador de samba, diz que a Piedade “sempre contou sua própria história”, sempre em busca de reverenciar sua ancestralidade nas próprias entranhas. E Papo, que cantou os 14 títulos, é raiz e fruto.

Papo Furado

Edson Papo Furado não é só personagem: é território. É o desenho vivo do que a Piedade aprendeu a ser. Aos 86 anos, com setenta anos dedicados à escola, ele atravessou becos, quadras e noites para transformar o cotidiano em arte. Sua irreverência e poesia moldaram o território que o formou.

Puxeta repete com afinco diversas vezes: “Papo é o maior ícone do Carnaval Capixaba”. Em seguida, Everton pisa firme ao afirmar que mesmo fora da avenida, Papo pode levar a escola ao 15º título, agora, “como enredo”.


Edson Papo Furado Foto: Reprodução/ Instagram @edsonpapofurado

Contrariando o misticismo por trás de sua figura, Papo é figura presente na quadra e sua linhagem mantém seu legado vivo: dois netos na bateria e o filho na Velha Guarda. “Se a escola é o que é, passa por ele e pela família”, diz Puxeta.

Edilene, filha caçula, fala do pai como quem fala de uma usina: interpretar recarregava sua energia. “Na avenida, era imbatível.” Quando soube que viraria enredo, “parecia uma criança”. Talvez porque, por um instante, o morro o abraçou de volta.

Comunidade em sintonia

A Piedade construiu sua força na resistência da própria comunidade. “Foram 14 títulos de gente da casa”, lembra Puxeta. O presidente Jocelino reforça a importância do território: a escola existe porque está “inserida, de fato, na comunidade”, sustentada por quem nasceu nela, um laço ancestral que se mantém em conjunto. “Estamos na construção de uma escola de samba com maior diferença de participação social, de construção coletiva. A piedade é sinônimo disso tudo”, completa Jocelino.

O vínculo com a comunidade é cultivado dia após dia. Ensaios espalhados pelos morros, visita aos vizinhos, quadra lotada. “A galera está chegando”, celebra Puxeta. A consagração desse laço ocorre na tradicional Descida da Piedade, quando a escola corta o Centro Histórico em cortejo.

Ensaio da bateria Ritmo Forte – Foto: Mariana Costa

O sociólogo e músico Douglas Santhos, morador das proximidades da quadra da piedade, conta ter sido puxado pela escola antes mesmo de morar na grande vitória. A escola é a alma da comunidade é a frase que usa para descrever o sentimento: Uma contra-narrativa ao estigma do morro, onde diziam perigo, ele vê potência. Em janeiro, um mês antes do carnaval, tudo muda de temperatura. “A Piedade respira outro ar.”

Ao falar de Papo Furado recorda o espanto inicial: “Como assim ele nunca foi enredo?”. Para ele, a homenagem é inevitável. “Papo e Piedade são uma simbiose. Um não existe sem o outro.”, Papo, diz ele, “é uma lenda”.

Aquilombar-se

O Carnaval da Piedade não é só festa: é quilombo. “Samba e carnaval são a negritude no seu mais alto nível”, diz Douglas. A escola ensina o que os livros não contam: que a história não nasce na chibata, mas na invenção, no que sobrevive e floresce.

A palavra que orienta essa travessia é aquilombamento. Um pacto silencioso de proteção, pertença e reconhecimento. “Aqui estou entre meu povo”, diz Douglas. “Quando a coisa empretece, tudo fica mais suave.”

Puxeta lembra que essa força se traduz em projetos: o Piedade do Futuro, que acolhe as crianças; o grupo das baianas; a formação permanente da bateria. São pequenos quilombos dentro do grande quilombo.

E quando pedem a Douglas que resuma a Piedade em uma palavra, ele sorri com certeza: “Samba. Com S maiúsculo.”

Escute o samba-enredo 2026 da Unidos da Piedade