Unidos de Jucutuquara vai cantar a força de Maria Padilha no Carnaval 2026

Thierry Khalil

De uma nobre castelhana acusada de bruxaria à entidade cultuada nas ruas e terreiros do Brasil, Maria Padilha chega ao Sambão do Povo como símbolo de resistência feminina. A Unidos de Jucutuquara escolheu para o Carnaval 2026 o enredo “Arreda homem que aí vem mulher”, que propõe discutir empoderamento, identidade e intolerância religiosa por meio da arte e do samba.

O tema é desenvolvido pelo carnavalesco estreante Marcelo Braga, que aposta na mistura entre narrativa histórica e expressão espiritual para contar a trajetória da personagem: de figura real na corte medieval ao culto nas religiões afro-brasileiras.

O presidente da escola, Weverton Gigante, explica que a proposta do enredo nasceu do desejo de fugir dos temas tradicionais e abordar algo que unisse impacto visual, captação cultural e debate social.

“A maioria dos enredos costuma ser histórica, falar de município, índio, de negro… e a ideia não era repetir isso. Nós queríamos fazer diferente. Daí surgiu a ideia de falar sobre Maria Padilha. Ela tem uma história, tem uma defesa, tem uma luta, um amor, um empoderamento feminino. Quando essa história vem para o Brasil, acaba se tornando uma referência dentro do sincretismo religioso. Para quem não conhece Maria Padilha, pode pesquisar: ela existiu, é real. Depois, sim, se tornou uma figura presente no lado espiritual. Mas existe uma base, uma história, uma força da mulher e estamos explicando isso para a galera entender que carnaval também é cultura”, disse o presidente.

Para Michelle Cesconetto, integrante da harmonia da escola, a expectativa para o desfile é de impacto emocional e visual.

“É um desfile que vem contando uma história muito importante, de empoderamento feminino, de religiosidade, com muito respeito às questões culturais também. Então a gente tem muita esperança de trazer um desfile belo, completo, digno para as pessoas assistirem.”

Além da proposta estética, a Jucutuquara aposta no samba para levantar a arquibancada logo nos primeiros versos. Composto por Rafael Mikaia, Roberth Melodia, Sylvio Poesia, Estevão Ferreira, Carlos Jarjura, Ana Werka e Vini BH, o samba-enredo oficial faz referência direta à espiritualidade, à força feminina e aos elementos simbólicos da cultura popular.

 

Veja a letra completa do samba-enredo 2026 da Unidos de Jucutuquara

“Arreda homem que aí vem mulher” — Compositores: Rafael Mikaia, Roberth Melodia, Sylvio Poesia, Estevão Ferreira, Carlos Jarjura, Ana Werka e Vini BH

Deu meia noite, o galo canta na porteira

O clarão da lua cheia ilumina o caminhar

Tentaram apagar a minha história

Feito brasa na fogueira insisto em queimar

 

De saia rodada na madrugada

Fiz altar no cruzeiro

Se meu trono é renegado, coroada no terreiro

Ê, Calunga!

Maré que vem e que vai

No sopro o vento me faz a dona do cabaré

Entre dois mundos meu encanto incorporou

Quando o ogã anunciou:

Arreda homem que aí vem mulher

 

Ela é Maria, Mariá

Ela é Maria, Mariá

Feitiço e sedução faço e desfaço

O meu peito é de aço e o coração de sabiá

 

Se meu coração é bom, a navalha é afiada

O perfume que fascina, veneno que mata

Se queres proteção peça com fé

Inimigo teu come debaixo do meu pé!

 

A dor que é transformada em amor

A flor que o espinho protege, não trai!

Quem bebe do meu champanhe “gira” e não cai

(Ô abre a roda pra eu passar)

A voz de quem nunca se cala é Mojubá!

 

Você sabe quem eu sou pela minha gargalhada

A rainha dessas ruas, da encruzilhada

Sou eu, sou eu! Sou Maria, sou Odara

A Padilha da Nação Jucutuquara