Uma homenagem à botânica alemã Teresa da Baviera que percorreu o Espírito Santo e escreveu sobre o estado
Ana Carolina Dalmaso e Sabrina Nascimento
A Mocidade Unida da Glória atravessa a avenida como quem escreve e conta uma história. E, mais uma vez, a escola de samba de Vila Velha se prepara para voltar ao Sambão do Povo. Com o mesmo desafio de sempre: surpreender. Em 2026, o enredo da MUG vai ser “O Diário Verde de Teresa”, que contará a história da botânica Teresa da Baviera pelo território capixaba.
A história propõe uma viagem pelas águas doces do estado do Espírito Santo, guiada pela curiosidade e coragem da alemã Teresa da Baviera. A narrativa é desenvolvida pelo carnavalesco Petterson Alves, assinada pelo enredista Léo Soares e com identidade visual de Edson Guidoni.
O presidente da escola, Robertinho, conta que Teresa da Baviera era uma princesa europeia que rompeu as expectativas da época ao recusar um casamento arranjado. Fascinada pelo Brasil, ela pediu ajuda a Dom Pedro II para realizar uma viagem pelo país, e foi assim que chegou ao Espírito Santo. “Ela chegou ao estado, mas a grande verdade é que Teresa rodou o Brasil inteiro”, disse o presidente.
Interessada em registrar a biografia e o modo de vida dos povos locais, Teresa queria conhecer de perto “o homem mais valente do mundo”, como se referia aos povos indígenas, inclusive os grupos antropófagos estudados pelos naturalistas do século XIX. Ela percorreu o Brasil em canoa, catalogando a flora, a fauna e a cultura capixaba. “Ela não queria casar, queria divulgar a cultura do país e fazer um diário, como fez”, relata Robertinho. Para ele, esse é o grande legado de Teresa ao Espírito Santo.
A natureza como mensagem
Para o carnavalesco Petterson, responsável por transformar essa trajetória em narrativa visual na avenida, a construção do enredo começou pela escolha da mensagem que a escola queria levar ao público. Segundo ele, o processo de pesquisa partiu da pergunta central: “O que a MUG quer mostrar no próximo carnaval?”.
Petterson explica que o enredo nasce da responsabilidade cultural que o Carnaval assumiu ao longo dos anos. “A escola de samba é um grande palco. A passarela é uma vitrine para expôr um produto, deixar uma mensagem. O carnaval deixou de ser só uma festa de corpos para ser uma festa realmente cultural”, afirma.
A escolha pela temática ambiental veio inspirada pelo atual debate em torno da preservação, impulsionado também pela COP30. “O que vai ser do nosso verde daqui a alguns anos? O que essa próxima geração conhece da natureza?”, questiona. A resposta veio com a figura de Teresa, que navegou o Rio Doce, vivenciou três semanas na Mata Atlântica e catalogou a fauna, a flora e a cultura capixaba. A primeira ideia de Alves era homenagear Augusto Ruschi, agrônomo, ecologista e naturalista capixaba, referência nacional nos estudos sobre beija-flores e orquídeas, porém, a família do pesquisador não autorizou o uso. A equipe voltou à pesquisa até encontrar em Teresa uma alternativa possível. “Entre outros naturalistas, encontramos Teresa. Não é capixaba, mas catalogou todas as nossas belezas”, explica.
Sobre a estética, Petterson descreve o trabalho como profundamente artístico e sensível. Cada cor, referência visual e fantasia nasce de um processo intenso de pesquisa e criação. É a partir do olhar do artista, que estuda, lê e busca referências para mostrar da melhor maneira possível. Ele destaca também a coletividade do desfile. “Eu sou uma andorinha, mas uma andorinha só não faz verão”, relata. O carnavalesco pensa, rabisca os primeiros traços, mas existe uma grande equipe por trás: carpinteiros, serralheiros, costureiras, projetistas. Um trabalho que começa com uma pessoa, mas ganha vida com todos eles.
Petterson reforça a mensagem que deseja transmitir com o enredo. Para ele, o desfile é um convite para que cada espectador desperte “a Tereza que habita dentro de nós”: uma defensora da natureza. “Ela nos ensina que a natureza pode ser explorada, pode ser extraída, mas precisa ser mantida viva. O verde não pode ser sucumbido. É nossa maior fonte de energia”, afirma. Segundo ele, o Carnaval da MUG pretende deixar uma mensagem de conscientização e resistência. “Vamos brincar o carnaval, mas com consciência de que o verde precisa se manter erguido. As nossas orquídeas, colibris, bromélias e tantos outros pássaros também dependem da mata viva, assim como nós precisamos do ar para respirar e de um teto para morar”, finaliza Petterson.
Um pouco da história da MUG
Em 1980, a MUG, força do bairro da Glória, apresentou um enredo sobre a Chocolate Garoto, foi um samba com muita alegria, bombom, leite e mel “na Glória, pertinho do céu”, relata o presidente. Com esse enredo, a escola conquistou o título de campeã. No ano seguinte, voltou ainda como bloco e garantiu novamente o primeiro lugar, tornando-se bicampeã. Em 1982, repetiu o feito, conquistando o tricampeonato.
A escola viveu um momento de pausa significativa em 1992, quando um incêndio destruiu seu barracão, o que impossibilitou o desfile naquele ano. Após uma década afastada dos desfiles, a MUG retornou em grande estilo com o enredo “O Renascer das Cinzas”, no qual relembrou sua trajetória e consolidou-se definitivamente como uma das maiores escolas do Carnaval Capixaba. “O Carnaval, hoje, é um grande exemplo de tudo o que se pode fazer. Ele é julgado por dez quesitos e, em cada um deles, você entra com a nota máxima”, ressalta o presidente da escola.
A MUG carrega uma trajetória marcada por conquistas no Carnaval de Vitória. São nove títulos no Grupo Especial, conquistados nos anos 2003, 2005, 2011, 2013, 2015, 2016, 2018, 2023 e 2024. Antes disso, também na divisão de acesso, garantiu vitórias em 1984, 1986 e 2008. Agora, na primeira noite de carnaval, a escola será a quarta a desfilar no Sambão do Povo, pronta e com desejo de ir atrás de mais um título.
Ouça o Samba-enredo
Em junho, a escola canela-verde anunciou as obras inscritas no Concurso de Samba-Enredo. A disputa reuniu seis composições, distribuídas em três fases eliminatórias. No mês seguinte, veio a definição: o samba número um da lista, assinado por Diego Nicolau e parceiros, foi o escolhido para dar voz à jornada de Teresa e à sua relação com o Espírito Santo.
Você que adentrou as minhas matas
Embarcou na encantada canoa pra desbravar
Catalogar a natureza capixaba
Brava mulher, bem vinda ao meu lugar
O teu diário, inventário da beleza
A riqueza na floresta um sinônimo de paz
À margem do perigo, o descanso
Que adormeceu ao canto de um coral de animais
(Trecho do samba-enredo da MUG para 2026)
https://youtu.be/cHhoEr2NoNg?si=V_mqGFBT47r4__Xq