Orí significa “cabeça” em Iorubá, e representa a integração das emoções e pensamentos que nos serve de guia para a vida
No coração de Maria Ortiz, a Chegou O Que Faltava se prepara para o Carnaval de 2026 e no caminho para o ponto de encontro com as fontes, o barulho já denuncia onde devemos chegar. Em um sala de paredes brancas com prateleiras recheadas de adereços e materiais para confecção das fantasias, Vitor Vasale, artista visual e diretor artísitico da Chegou O Que Faltava, conta sobre a construção do enredo que vai preencher a avenida.
Vitor nos explica que para os praticantes da religião Iorubá e outras religiões de matriz africana, o Orí é uma divindade que habita o ser humano e merece atenção e cuidados espirituais, pois pode trazer a cura ou o adoecimento mental e espiritual. A crença diz para cuidarmos do Orí, tanto quanto cuidamos do nosso corpo físico, para que a “cabeça-guia” assimile a vida como ela é para lidar com as dificuldades e as mudanças que vierem.
Ao longo da avenida, a Chegou vai mostrar a trajetória de criação, construção e cuidados desse Orí, com uma reflexão silenciosa, o samba-enredo pincela sobre a falta de cuidados e suas consequências, pensando na importância dos cuidados espirituais. “Fala-se tanto de adoecimento mental, o mundo traz tanta opressão. De forma subjetiva, o enredo traz a importância de compreender essa trajetória da cabeça e cuidar dela espiritualmente”, explica Vitor.
Quando os desenhos se tornam reais
É possível perceber o carnaval de 2026 chegando, sorrateiramente, no ateliê da Chegou o que Faltava. Antes mesmo de entrar no local, a movimentação já foi anunciada, homens e mulheres cortavam, mediam e colocavam enfeites e jóias nas fantasias que faltavam. Quartos cheios de tecidos, adereços, paetês e fitas mostram a atenção aos detalhes que compõem cada fantasia. No segundo andar do ateliê, as fantasias já prontas ficam expostas em manequins, aguardando o momento que passearão pela avenida.
Enquanto aguardávamos numa sala pequena e um cafézinho em mãos, observamos admiradas a quantidade de desenhos nas estantes e nas paredes. Eram croquis de fantasias…Uns tinham escritos, indicando o material a ser usado e outras características da roupa, como “colocar a pena entre os tecidos do chapéu” ou “por lantejoulas nas mangas”. Vários deles eram de carnavais passados, cheios de cores e estilos extravagantes. “Aqui tem toda a composição e ele [o artista] faz tudo em aquarela”, menciona Vitor ao mesmo que nos convida a desfilar na avenida.
O segundo passo, que dá vida ao atêlie, é transpor os desenhos coloridos para a realidade. Nesse momento, os integrantes da divisão artística precisam pensar nas medidas, nos pesos, nos materiais e tudo que é possível compor a ideia do desenho.
No pátio, sete pessoas colocavam “a mão na massa”, com tesouras, fitas e tecidos espalhados pelo local. As estruturas já prontas aguardavam em um quarto separado e tecidos esperavam ser usados na confecção. Enquanto finalizavam os trabalhos para encerrar o dia, conversavam sobre a fantasias e questionavam uns aos outros se participariam do ensaio naquela noite.
A comunidade é o coração da escola de samba
“A escola não deve existir apenas para desfilar e ganhar carnaval”. Nas palavras de Leandro Maciel, atual apoiador financeiro da Chegou e membro da família fundadora, a escola de samba é muito mais que um evento anual, ela participa e depende da sua comunidade local. As escolas de samba são consequência da integração da sua própria comunidade, e é por isso, que devem promover ações e prestar serviços à população. “Não se faz escola de samba sem as pessoas. E é nesse pensamento que surge a Chegou O Que Faltava”, completa.
Ao visitar o passado, Leandro relata a participação de sua família, principalmente de sua avó, dona Elza, na construção da famosa escola de samba de Goiabeiras.
A escola que nasceu de uma conversa de bar
Na verdade, a Chegou O Que Faltava nasceu na região de Antônio Honório, — próximo ao bairro Goiabeiras — em meados da década de 70, como uma simples batucada entre amigos e vizinhos. A brincadeira musical foi criada pelos integrantes do “Hi-Fi”, time de futebol do bairro, que se reuniam em uma mesa de bar após um caloroso jogo no campo. Era uma diversão coletiva “feita a várias mãos”, como conta Maciel.
O bar onde acontecia a batucada ficava próximo ao quintal de dona Elza, que também era envolvida no samba e sem querer se viu obrigada a participar. O pai de Leandro, que já era músico na época, ensinou o pessoal a tocar os instrumentos. Nesse ritmo, o grupo foi crescendo até se tornar verdadeiramente um bloco. Em 1973, o agora “Bloco do Hi-Fi” começou a desfilar dentro do bairro reunindo, cada vez mais, a comunidade.
Conforme mais pessoas participavam do bloco, os integrantes fundadores sentiram o desejo de alcançar algo maior: desfilar na avenida Princesa Isabel, junto dos outros blocos de samba. Mas antes que tentassem, eles precisavam definir a ata e consequentemente um novo nome para o bloco.
Em 1975, os integrantes se reuniram no bar de origem para decidir os próximos passos enquanto bebiam uma cervejinha, como era de costume. Dessa vez, a bebida estava demorando a chegar, e quando finalmente o garçom apareceu com a grade de cerveja, um dos presentes na mesa gritou “Chegou o que faltava!”. E a frase pegou.
Ouça o samba-enredo