Imperatriz do Forte: tradição, comunidade e o Xirê que guia 2026

Escola vai levar para o carnaval valorização da cultura negra e memória da comunidade.

Felipe Figueiredo e Mélany Pacheco

No Carnaval, o enredo é mais do que o tema de um desfile: é a narrativa que conduz a escola pela avenida, costura identidade, memória e estética, e traduz em arte aquilo que cada agremiação escolhe contar ao mundo.

Em 2026, a Imperatriz vai levar para a avenida o enredo “Xirê: Festejo às Raízes”. O Xirê é uma palavra yorubá que pode ser traduzida como brincar ou dançar. Nas casas de candomblé da tradição Ketu, é o momento da abertura da roda o qual se canta para os Orixás (de Exú a Oxalá) e também se conta suas histórias. O rito evoca e homenageia os Orixás, com músicas, danças, o toque de atabaques e a manifestação dessas divindades.

Para o presidente Daniel Modesto, o enredo expressa a intenção da escola de dar visibilidade às raízes: “O ponto de partida foi o desejo de celebrar a ancestralidade africana que está presente nas nossas expressões culturais, na nossa musicalidade e na própria história do samba. Xirê representa o ciclo sagrado de dança e louvor aos orixás, uma verdadeira celebração das raízes que nos sustentam como povo e cultura. Queremos mostrar que o Xirê não é apenas religião ou dança. É memória, é herança viva, é identidade”, compartilha Modesto.

A escolha dialoga com o momento atual de fortalecimento da cultura afro no Espírito Santo e no Brasil porque reconhece um movimento vivo, crescente e plural de valorização das matrizes africanas em diversas esferas da sociedade. Nos últimos anos, terreiros, coletivos culturais, artistas negros, grupos de congo, capoeiristas, mestres de saberes tradicionais e iniciativas comunitárias têm ocupado cada vez mais espaço. Em várias cidades capixabas, como Serra, Vila Velha e Cariacica, grupos de congo têm participado de festivais, projetos culturais e ações de preservação que reconhecem mestres, tocadores e guardiões dessas tradições.

A Imperatriz do Forte não apenas presta homenagem, mas também reafirma o papel fundamental dessas tradições na resistência, na preservação da memória e na produção de novas narrativas sobre o que significa ser povo de raiz africana.

História da escola

Fundada em 15 de dezembro de 1972 no Forte São João, em Vitória (ES), a Imperatriz do Forte surgiu de um movimento espontâneo dos moradores que, organizados em mutirões culturais, buscavam criar uma identidade própria dentro do samba capixaba. Desde o início, a escola desenvolveu uma forte ligação com o bairro, que moldou seu caráter, sua estética e sua forma de existir no Carnaval.

Segundo o presidente da agremiação, Daniel Gomes:
“A Imperatriz do Forte nasceu e cresceu junto com sua comunidade. Desde o início, foi o povo do Forte São João, com seu amor pelo samba, sua criatividade e união, que construiu essa história. Cada desfile, cada ensaio, cada mutirão é reflexo da força da nossa gente. A Imperatriz é mais que uma escola: é um símbolo de resistência cultural, de pertencimento e de amor coletivo.”

A explicação acompanha a história da escola: as cores verde e rosa foram inspiradas na Mangueira, e o nome “Imperatriz” surgiu de um sorteio que levou à referência simbólica de uma das grandes escolas de samba do Rio, a Imperatriz Leopoldinense. Esses elementos mostram como a comunidade do Forte São João buscou entrar no universo do samba sem abrir mão de construir uma identidade própria.

Ao longo das décadas, a Imperatriz viveu períodos de brilho e outros de dificuldades, incluindo fases em que não desfilou. Apesar da fundação nos anos 70, a escola enfrentou interrupções nos desfiles: entre 1993 e 1997 não ocorreram desfiles oficiais e em 1998 a escola também não desfilou. Após esse hiato, a escola voltou à avenida em 1999.

Nos últimos anos, porém, a escola passou por um processo de reestruturação que reposicionou sua força dentro do Carnaval de Vitória. Para o presidente, esse momento representa uma virada definitiva: “Tivemos vários momentos marcantes, mas o retorno da escola com força total e o trabalho de reestruturação dos últimos anos representam um verdadeiro renascimento. Foi quando a comunidade voltou a acreditar, os artistas retornaram, e conseguimos reafirmar nossa identidade como uma das grandes representantes do samba capixaba.” Esse “renascimento” é perceptível: em 2024, a escola sagrou-se campeã do Grupo de Acesso, o que garantiu o retorno ao Grupo Especial em 2025.

Comunidade, pertencimento e convite

A quadra da Imperatriz do Forte funciona, ao longo do ano, como um ponto de encontro e de criação coletiva, onde a comunidade participa de atividades culturais, projetos sociais e oficinas que fortalecem os vínculos do bairro. A escola mantém as portas abertas a quem quiser conhecer de perto o trabalho e a rotina que sustenta o desfile.