Independente de Boa Vista transforma o Sambão do Povo em território de João Bananeira em 2026
No Carnaval de 2026, a Independente de Boa Vista escolheu fazer da avenida um território de ancestralidade. A escola apresenta o enredo “João do Congo: A Voz Que Dança nas Folhas da Resistência”, uma homenagem ao personagem mais emblemático do Carnaval de Congo de Máscaras de Cariacica: João Bananeira, reconhecido como patrimônio imaterial do município.
A figura de João Bananeira carrega, há décadas, o simbolismo da resistência afro-capixaba. Coberto por folhas de bananeira, mascarado e cercado de segredos, ele representa uma tradição que nasceu como forma de proteção cultural durante o período escravocrata, quando homens negros participavam de manifestações religiosas e festivas de maneira disfarçada para evitar punições.
Com o tempo, esse disfarce se transformou em identidade e memória coletiva, se tornando personagem central das festas de congo realizadas em Cariacica, especialmente na região de Roda D’Água, onde o congo de máscaras segue vivo há gerações.
O tema se conecta de forma profunda com a maneira como a comunidade da Boa Vista enxerga a construção dos enredos. Gabriel Falcão, integrante da escola, explica que o desfile é sempre um ato de interpretar e dar vida a uma história:
“Cada enredo do carnaval, de cada ano, é contado uma história. Então isso me emociona, ver as pessoas se vestindo do personagem, dentro do enredo da história, dando vida à história, defendendo as cores da comunidade e abraçando aquele momento de união e força.” comenta Gabriel.
História da escola
A Independente de Boa Vista nasceu em 1975, inicialmente como um bloco formado por moradores do Alto Boa Vista, até se transformar em escola de samba e consolidar sua quadra no bairro Itaquari. Desde o primeiro desfile no Sambão do Povo, na década de 1980, a agremiação começou a construir sua identidade: uma escola que valoriza o Espírito Santo, as tradições capixabas e a força da comunidade que a sustenta.
Ao longo de sua trajetória, a Boa Vista viveu ascensões e quedas. Um marco importante ocorreu em 1991, quando retornou ao grupo especial com o enredo “Brasil, o incrível país das ilusões”, depois de períodos de instabilidade. Nos anos 2000, a escola encontrou seu caminho estético e temático, apostando em enredos que celebravam a cultura capixaba. Em 2003, apresentou um dos desfiles mais comentados de sua história, “360: Vitória, uma viagem em torno de ti”, lembrado pela criatividade mesmo em meio a dificuldades financeiras.
Rafael Frisso é ritmista da escola e para ele a principal diferença da Boa Vista das outras agremiações é o orgulho que a escola tem em ser capixaba.
“Cariacica mostra isso sempre trazendo enredos com temáticas voltadas para a cultura do estado”, compartilha Rafael.
Em 2012, a escola conquistou o bicampeonato homenageando a poeta Elisa Lucinda no enredo “Vida em Poesia… A Lira que é Lucinda”, que consagrou a força criativa da agremiação e consolidou entre as mais competitivas do carnaval capixaba.
Mas talvez nenhum episódio seja tão lembrado pela comunidade quanto o incêndio no barracão, no final de 2018, quando as chamas destruíram alegorias, incluindo o símbolo da escola.
Gabriel Falcão comenta sobre a dimensão da dificuldade e da superação: “Sou membro da diretoria desde 2018 e posso dizer que cada carnaval tem sua história, mas o de 2019 foi o mais marcante. Tivemos um incêndio de grandes proporções no barracão e perdemos praticamente tudo, inclusive a águia que já estava quase pronta”.
Mesmo diante do caos, a escola conseguiu se reorganizar: “A gente confeccionou fantasias em casa, a comunidade inteira se mobilizou e tivemos só quarenta dias para reconstruir tudo. Mesmo assim, conseguimos apresentar o desfile planejado e ainda ganhamos o título, mostrando a força e a superação da Boa Vista”, relembra Gabriel.
Se os momentos difíceis fortalecem a história da Boa Vista, a dedicação e a união constroem o pavilhão azul e branco, inclusive para Rafael:
“Minha trajetória mostra isso: a rotina começa leve em agosto, cresce até o desfile, e a entrega é tanta que já dormi na quadra na véspera do carnaval. Todo ano tem algo que marca, mas o que mais emociona é ver a força da Águia Furiosa, um ritmo passado por famílias que tocam juntas há décadas, com pais e filhos mantendo viva nossa tradição”, conclui o membro da bateria.
Ao completar 50 anos, a Independente de Boa Vista carrega uma trajetória de trabalho árduo, conquistas, superações e uma forte ligação com os enredos que celebram raízes capixabas. Uma história marcada tanto pelos grandes momentos no Sambão do Povo, quanto pelas memórias pessoais de quem vive a escola por dentro.
Comunidade, pertencimento e convite
A Independente de Boa Vista é reconhecida pela força da comunidade que a sustenta, uma rede de famílias, jovens, crianças e veteranos que transforma a quadra em espaço de convivência, criação e aprendizado.
O pertencimento nasce tanto do samba, quanto dos projetos que a escola desenvolve ao longo do ano, como as escolinhas de percussão, ações sociais e atividades culturais abertas ao bairro. Para Gabriel Falcão, essa vivência explica por que o carnaval da Boa Vista ultrapassa o desfile: “A escola é uma prestadora de serviço para a comunidade, para a sociedade, não é só lazer, não é só carnaval. O universo do carnaval é muito bonito, é união, agregar, se juntar no coletivo”.
É desse sentimento que surge o convite da escola: que mais capixabas se aproximem, conheçam de perto a força da cultura da comunidade e vivam a experiência transformadora de participar de uma agremiação que celebra identidade, memória e futuro.