Escola de Serra transforma história capixaba em enredo e encara o desafio entre as grandes.
A Rosas de Ouro decidiu mirar para dentro. Em um carnaval que tantas vezes busca referências distantes, a escola colocou o Espírito Santo no centro do próprio espetáculo. Para 2026, a agremiação vai levar à avenida a história de São Mateus, não apenas como homenagem, mas como afirmação de identidade.
A escolha do enredo nasceu em reuniões que, de início, não prometiam um salto tão ambicioso. Segundo o presidente Francisco Carneiro, a escola buscava um município para celebrar. “Quando nos reunimos com o prefeito e com a equipe da prefeitura, eles abraçaram a ideia na hora. E ali ficou claro: São Mateus tinha que ser o enredo. É um município historicamente riquíssimo”, relembra.
Um Espírito Santo que cabe no samba
A narrativa promete passear por fundações seculares, lendas, cultura popular e pelas forças econômicas e turísticas que moldam a cidade homenageada. Mas, mais do que isso, acende um debate silencioso: por que o carnaval capixaba, tantas vezes, evita olhar para si mesmo?
Carneiro responde com convicção: “Queremos transmitir que temos, aqui no estado, histórias grandiosas. São Mateus é uma delas. E podemos contá-las com alegria, cor e responsabilidade.”
Ainda que cordial, a fala ecoa como crítica. Rosas parece tentar romper a lógica de que bons enredos dependem de temas exóticos, longínquos ou de apelo nacional. A aposta, agora, é na valorização do local e no risco que isso envolve. Afinal, transformar um município capixaba em espetáculo é também medir a maturidade do próprio carnaval de Vitória.
Bastidores de um desfile que quer surpreender
Se o enredo é capixaba, a execução é um mosaico de influências.
“A produção está caminhando bem. Temos profissionais muito qualificados, tanto do Rio quanto daqui. As alegorias ganharam reforço de artistas de Parintins, e isso tem elevado o nível do trabalho”, explica Carneiro.
De Serra para o mundo
A trajetória da Rosas de Ouro nunca foi linear. Nascida numa conversa entre amigos em Serra Dourada, inspirada pelo futebol de várzea e pela escola paulistana que lhe emprestou o nome, estreou em 1985 com título, um feito que criou expectativas difíceis de sustentar nos anos seguintes.
Depois de oscilar entre divisões, vencer o Acesso B em 2024 e alcançar o terceiro lugar no Acesso A em 2025, ela retorna ao Grupo Especial pela primeira vez em quase 20 anos. E esse retorno tem menos glamour do que pressão.
“A gente quer terminar o carnaval sem estar na lista dos possíveis rebaixados. Nosso objetivo é permanecer. Voltamos para o lugar de onde nunca deveríamos ter saído”, afirma o presidente.
Há, na fala, uma mistura de orgulho, alerta e urgência. A Rosas sabe que sua permanência não está garantida e talvez por isso a escolha de São Mateus carregue tanto sentido. Homenagear o Espírito Santo pode ser também uma estratégia para se firmar como escola que entende seu papel político-cultural dentro do desfile.
Entre tradição e reinvenção
Para 2026, a escola carrega mais do que um enredo: carrega uma tese. A de que o carnaval capixaba tem histórias grandiosas o suficiente para ocupar a avenida.
Se São Mateus brilhar na passarela, a Rosas de Ouro terá feito mais do que um desfile: terá reivindicado um lugar definitivo no Grupo Especial e, quem sabe, ajudado a reescrever o modo como o carnaval do Espírito Santo escolhe contar sua própria memória. Mais do que isso, na tentativa de mostrar que o carnaval capixaba pode, sim, contar suas próprias narrativas com a mesma força das grandes escolas nacionais.